LiteraTamy
LiteraTamy

outubro 2019
D S T Q Q S S
« ago    
 12345
6789101112
13141516171819
20212223242526
2728293031  

Categorias


LiteraTamy

UMA FORMA DE CURA

de Luiza Provedel

Tamy GhannamTamy Ghannam

uma_forma_de_cura_ebookUm dos mais encantadores atributos da literatura é seu potencial transformador. Os livros já se provaram capazes de converter o feio em bonito, o longe em perto e o errado em correto – bem como o contrário. No caso de Uma forma de cura, livro de estreia de Luiza Provedel, o que a arte literária faz é transmudar o passado em lentes para o futuro, lapidando um sofrimento genuíno por meio do processo estético ofertado pela palavra.

O livro, escrito em versos como um poema narrativo, tem como tema uma relação lésbica abusiva (já terminada) e aproxima o leitor desde o início, trazendo-o de modo direto para dentro do texto pelo uso de amigáveis vocativos. Como quem busca despertar no próximo a reflexão acerca de seus possíveis relacionamentos, a poesia de Provedel se dispõe a apontar indícios despercebidos de laços tóxicos, cabíveis nas mais diversificadas configurações amorosas.

As divisões do livro reproduzem o desenvolvimento clássico dos relacionamentos abusivos. A começar pelo impacto, pela surpresa da violência que machuca ainda mais porque vem inesperadamente, de onde deveria partir o amor. Nessa parte inicial, o eu lírico feminino parece tentar compreender o que se desenrola contra ele, uma vez que a agressão assume várias formas inusitadas, não apenas as físicas, mas também as psicológicas e emocionais. Seu pensamento em seguida volta-se para o antes, para o que havia de anterior ao abuso, percebendo as sutilezas de situações que já eram sinais, até então inofensivos. O depois, terceira parte da narrativa, é sobre como seguir uma vez que se descobre em uma armadilha emocional perigosa. Então vem o agora, o momento do processo de cura, em que a vítima, até então subjugada, começa a olhar para si e se conhecer melhor sozinha, sem o peso do relacionamento que a deturpa e consome. Melhor seção do livro, nela fica evidente o exercício tão bonito e necessário da ressignificação dos traumas, de aceitar outros modos possíveis de lidar consigo a partir do autocuidado. E, por fim, surge a superação, prática contínua, jamais concluída e sempre renovável, em que o eu lírico se cicatriza e divide o que aprendeu, compartilhando a sua forma de cura: o fazer literário.

Espécie de cartilha para superar relacionamentos abusivos, mas sem a típica formalidade didática que distanciaria o leitor, Uma forma de cura é repleto de emoções e sentimentos que provocam o efeito de proximidade, de aconchego em quem se reconhece naquelas angústias e talvez precise de uma bússola para fugir do terreno das violências. O livro inevitavelmente esbarra no lugar-comum, mas como não se confortar no clichê? Aliás, não é justamente essa a sua função, nos garantir alguma segurança neste terreno incerto que é a vida? Se “só a arte permite/ que a gente transcenda/ a bruta falta de sentido da realidade” (p. 98), então que a licença poética autorize o uso moderado dos chavões como dispositivos de recuperação dos eixos daquele que foi instabilizado.

De fato, se há um defeito verdadeiramente incômodo no livro, não se trata da presença compreensível do clichê, mas sim da escolha injustificada da forma poética. Esforçando-se (de modo até comovente) para garantir ritmo e sonoridades que autentiquem o lugar de seus textos dentro do cobiçado mundo mágico das poesias, Provedel abusa das rimas pobres e forçadas, nos fazendo pensar: precisava mesmo ser em versos? Muito provavelmente a narrativa fluiria melhor em prosa, sem a obrigação de obedecer ao que a poesia pede. Essa preocupação com se encaixar na forma escolhida limita o alcance do que precisa ser dito, reproduzindo em certa medida as amarras do tipo de relacionamento que ela retrata. Além disso, parece haver certo descuido da edição que deixou um ou dois poemas deslocados, destoantes da temática, descomplicadamente elimináveis da coletânea. O cuidado estético da editora Chiado, no entanto, é evidente. Ilustrada por Marina Papi e muito bem diagramado, a leitura dessa edição causa legítimo contentamento naqueles que prezam por exemplares agradáveis aos olhos.

E para além de só embelezar a estante, o livro de Provedel tem uma função muito mais respeitável: nos fazer refletir sobre como é triste enxergar tantas mulheres diferentes dentro de situações negativas tão parecidas, a tal ponto que as próprias mulheres reproduzam, em relacionamentos lésbicos, a opressão que as alveja. O retrato literário desse tipo de situação demonstra o quanto aquilo que se entende por amor é fruto de estruturas sociais ainda não ultrapassadas. Luiza aponta na literatura uma possível saída desse ciclo de abusos, como processo catártico de convivência ressignificada com o trauma, a fim de compartilhar experiências de modo a produzir a sensação de restabelecimento para ela, que escreve, e também para leitoras hipotéticas que possam topar consigo ali, na dor da outra. É a literatura como um meio de curar.

Tamy Ghannam (contato@literatamy.com)

EDIÇÃO RESENHADA:

uma_forma_de_cura_ebookEditora Chiado, 2019

Brochura, 124 páginas.

Compre diretamente pelo site da editora clicando aqui.

Assista também ao vídeo sobre o livro no canal LiteraTamy: 

Esse texto é um publieditorial, cujo conteúdo reproduz integralmente a opinião do
LiteraTamy.
Uma Forma De Cura
Luiza Provedel
21 de March de 2019
124

Quando o amor é tudo ou nada

A gente aceita

Tudo

Ou

Nada

E não tem nada

Mais arriscado

Que deixar tudo

Na mão

Do amor

22 anos, São Paulo, Letras. Apaixonada por literatura, compartilhando experiências literárias através da internet.

Comentários 0
Atualmente não há comentários.