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TRAVESSURAS DA MINHA MENINA MÁ

de Otávio Bravo

Tamy GhannamTamy Ghannam

Inspirada na icônica obra do escritor peruano Mario Vargas Llosa, a trilogia brasileira Travessuras da minha menina má é uma narrativa em primeira pessoa que descreve a passagem de sessenta e nove anos da história do protagonista Victor, em cujo caminho surge a chilenita Maria Eduarda, dotando de valor a trajetória de um indivíduo em nada excepcional.

travessurasO primeiro dos três volumes é denominado Avant les saisons e portanto traz a descrição da vida do personagem principal antes do encontro com sua menina má. Carioca de classe média alta, o Victor do primeiro livro surge como um adolescente na década de 1980, aprendendo a lidar com si mesmo e com o mundo em meio a um período político conturbado no Brasil. Filho de pai militar inglês, o garoto se destaca pelos cabelos ruivos, sendo em todo resto um tanto quanto mediano, especialmente se em comparação com o grande ídolo de sua adolescência, o irmão mais novo Caíque, figura cativante e ativa durante o crescimento do protagonista. Esse tomo inicial apresenta os fundamentos da personalidade de Victor, bem como seus exercícios de descoberta, dos amores, das alegrias, das perdas e das tristezas, típicos da fase de amadurecimento dos seres humanos, bem como o reconhecimento de traços censuráveis no comportamento de seu grupo social – como é o caso do racismo velado e subitamente revelado pela presença do único personagem negro da história, Leonardo, figura que se provará essencial para o desenvolvimento do protagonista nos três romances.

Aqui, o crescimento de Victor é notável e sua personalidade vai sendo traçada de modo a conquistar o leitor, que cria laços com esse jovem adulto um pouco carente e muito introspectivo. A relação entre o livro e seus legentes torna-se ainda mais estreita quando tem início a fase adulta do protagonista, e junto com ela seu primeiro relacionamento amoroso e as primitivas tragédias das tantas que farão parte da jornada desse herói desajustado. O que mais chama atenção em Avant les saisons, no entanto, é o panorama histórico-político do Brasil que faz parte do livro, cenário dinâmico da narrativa. Nesse sentido, ela se aproxima sensivelmente das Travessuras da menina má, de Llosa, pelo equilíbrio que há entre a descrição da vida particular do protagonista e das movimentações coletivas marcantes para o mundo na segunda metade do século XX, movimentações estas que inevitavelmente influem sobre a faceta privada de quem as vive.

Ainda nesse mesmo volume, o narrador firma sua carreira na área acadêmica, estabelecendo-se como professor de história oriental em renomadas universidades, e antecipa a entrada daquela que será sua menina má, contando um pouco das origens e traumas dessa personagem problemática. Mas apenas no livro II, Les saisons, Maria Eduarda passa a participar ativamente da trilogia, fazendo com que Victor experimente todas as fases do amor: a primavera em que floresce o desejo, o verão ardente da paixão, o lento cair das folhas do outono e a fria despedida no inverno infértil. A troca de estações expõe o caráter paradoxal de Duda, personagem formada por intensas ambiguidades, e aprofunda a personalidade solitária – e fadada a essa solidão – do narrador. Os contrastes das individualidades e vontades de Maria Eduarda e Victor são gritantes para qualquer observador e mesmo o protagonista reconhece o abismo que há entre eles, sem contudo abrir mão de tentar incansavelmente transpô-lo. Há novamente um forte diálogo com o romance peruano no modo de amar dos dois bons meninos, isto é, tanto o Ricardo de Mario Vargas Llosa quanto o Victor de Otávio Bravo têm de lidar com os sumiços e reaparições das mulheres que amam, acolhendo-as sempre com a mesma incondicionalidade cegamente apaixonada, por piores que sejam os efeitos do abandono sobre eles.

O terceiro e mais rechonchudo dos volumes é também o mais arrojado dos três, na medida em que se arrisca a narrar acontecimentos de um futuro incerto, descrevendo as desventuras de Victor desde 2014 até o ano de 2053. Como que se apropriando da capacidade dedutiva do protagonista historiador, cuja capacidade de prever o rumo das sociedades orientais o distingue enquanto profissional, o narrador de Après les saisons empreende um passeio contido, mas ainda assim corajoso, pela Europa e pelo Brasil que estão por vir, descrevendo aqui e ali algumas mudanças tecnológicas e sociais que podem (ou não) acontecer. E como nessa trilogia o coletivo e o particular caminham juntos e com igual importância, a vida privada do protagonista também ganha rumos ousados e até surpreendentes. Ainda que imaginássemos que o amor sólido e ilimitado de Victor por Duda pudesse causar problemas graves a ele, nada nos prepara para o episódio desastroso cujas consequências custam anos de sua vida.

A reviravolta proposta pelo autor ao personagem é tanto possível quanto perigosa e pode causar a sensação de certa falta de medida nas descrições apresentadas. Explico: há uma grande diferença de velocidade entre a narração do primeiro livro, em que o cotidiano pré-Duda é oferecido com riqueza de detalhes, num ritmo confortável que enlaça sedutoramente o leitor à trama do romance, e o quase afobamento narrativo do último volume, em que seriam de fato narradas as travessuras que intitulam a tríade. Ainda que seja o maior em número de páginas, Après les saisons pode soar um pouco apressado em descrições essenciais, como se para elas não tivessem sido encontradas soluções verossímeis, e demorado em ocasiões e descrições dispensáveis. Por outro lado, se o excesso de informações e detalhes pode, sim, ser um contra aos leitores que se cansam de descrições acessórias, ele pode funcionar, também, como excelente pró, na medida em que aprofunda o mergulho na perspectiva do narrador-protagonista, oferecendo maiores possibilidades de identificação, comprometimento e empatia para com ele.

E, ainda que assim não fosse e que houvesse ali discurso ilusório que repetia a mim mesmo como bálsamo do espírito, a justificar as loucuras que fazia por ela, ela lhe daria perdão eterno só pelo fato de amá-la de forma plena e infinita. Pouco importava que não houvesse no mundo outr’alma a compreender aquilo. Era o sentimento que lhe tinha, meu regalo a ela, à minha menina má, e assim seria pelo resto da vida. (p. 488, v. III, 2018)

À parte a circunstancial escorregada no aprofundamento de determinados episódios prescindíveis, há nos três romances características louváveis que merecem destaque, sobretudo quando os consideramos como produto da primeira aventura literária de Otávio Bravo, empreitada que resultou em mais de mil páginas cuidadosamente escritas. Em primeiro lugar, a evidente e admirável pesquisa histórica do autor, que rendeu belíssimas redações de fatos reais muito bem detalhados, conferindo ao romance não apenas veracidade e credibilidade, como também o fortalecimento da figura do narrador polido, intelectual formado em História e, consequentemente, conhecedor das conjunturas histórico-sociais apresentadas por ele. Além disso, em determinados momentos o narrador assume uma função onisciente das questões externas à sua trajetória pessoal e passa a narrar o percurso de personagens secundárias que, por alguma razão posteriormente explicada, relacionam-se com sua jornada, mostrando de modo charmoso e até mesmo divertido como as vidas individuais estão conectadas. A galeria de personagens que vão e voltam na vida de Victor é diversificada e representativa, compondo uma interessante reunião de várias faces de uma mesma classe social. Por fim, o distanciamento temporal de um personagem que conta a história de si mesmo, já ciente do desenrolar de cada acontecimento, faz com que a narrativa seja sensata, bem observada e avaliada pelo personagem que antecipa situações, reconsidera seus atos e encontra certa redenção ao passear de volta pelos corredores da própria existência, marcada pelo brilho singular de um amor excepcional.

No que concerne à relação da trilogia brasileira ao romance peruano, há menos semelhança entre suas meninas más do que entre os protagonistas apaixonados. O fato é que essas desventuras do bom menino, dadas a nós pelo próprio sujeito, faz com que nos apaixonemos pela menina má e nos decepcionemos com ela, sem contudo conseguirmos abrir mão de continuar a procurá-la pelas centenas de páginas sobre um homem cuja vida poderia facilmente ser tão desinteressante quanto tantas outras, não fosse pela presença do amor incomum que a torna digna de ser contada – e lida.

Tamlyn Ghannam (contato@literatamy.com)

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Esse texto é um publieditorial, cujo conteúdo reproduz integralmente a opinião do
LiteraTamy.

21 anos, São Paulo, Letras. Apaixonada por literatura, compartilhando experiências literárias através da internet.

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