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Stoner

Tamy GhannamTamy Ghannam

 William Stoner, filho de família pobre do meio agrícola, graças ao esforço e à economia dos pais tem a oportunidade de estudar na Universidade do Missouri. Com 19 anos, o jovem inicia o curso de Ciências Agrárias, objetivando terminar a graduação e retornar à fazenda paterna, para então colocar em prática a teoria aprendida. O que na verdade acontece é que, dentro da universidade, Stoner conhece a literatura, através de uma matéria obrigatória para todos os cursos, e apaixona-se pelas letras, das quais não consegue – e não quer – se desvencilhar, ao ponto de trocar de curso, abandonando a ideia inicial em prol do beletrismo. Os livros servirão para Stoner como alívio à solidão, que torna-se suportável pela presença da literatura humanizadora.

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Depois de finda sua trajetória como discente, o protagonista passa a lecionar na mesma faculdade em que estudou. Ele estabelece uma relação amistosa com dois outros professores: Gordon Finch e David Masters. A partir dessa relação, surge a discussão mais interessante da obra, referente aos diferentes modos de ver a universidade. Stoner enxerga no espaço acadêmico a remição; na cultura e, especialmente, na literatura, um modo de se salvar. A vida acadêmica é o que lhe dá motivos para viver na medida em que lhe faz promessas nas quais ele continua crendo. Da mesma maneira, mas em menor medida, Finch também vê na carreira universitária uma espécie de compensação à sua mediocridade, à sua medianeidade. Ou seja, a visão dos dois beira o otimismo, preza o belo da experiência acadêmica.

  Masters, por sua vez, apresenta uma visão mais realista do contexto universitário. O professor tem na docência um sinal verde para assumir sua irresponsabilidade sem consequências, irresponsabilidade esta que ele não poderia adotar da mesma forma no mundo externo. Para ele, as experiências universitárias nada mais são que “pretextos para sobreviver”. É curioso adentrar essas diferentes interpretações sobre o espaço da universidade e perceber que todas são plausíveis em certo nível.

  Uma vez que a existência do protagonista só ganha significado a partir de quando ele conhece e passa a viver na universidade, é inevitável que o livro entre na discussão sobre o verdadeiro mérito dos cursos superiores. Estabelece-se na narrativa um questionamento atualíssimo acerca do papel da formação acadêmica como agente efetivo para a melhoria da sociedade, não só da comunidade universitária, mas do corpo social “real”. Tal indagação apresenta-se particularmente fundamental no período em que eclode, dentro do livro, a Primeira Guerra Mundial, conflito que abala mesmo o universo acadêmico, normalmente sob uma bolha que o isola do restante do mundo. A batalha de dimensões internacionais surge como um dos poucos eventos capazes de estremecer as estruturas desse espaço universitário que até então se sustentava de modo autônomo, independente do resto. A natureza destrutiva da guerra, além disso, é completamente oposta à natureza primordialmente construtiva do espaço acadêmico. A decisão de Stoner quanto à possibilidade de pegar em armas e lutar a favor de seu país confere virtude ao personagem, na medida em que ele não trai suas crenças e escolhe permanecer alimentando a academia. Essa deliberação é certamente o único vestígio de coragem do protagonista, e mesmo ela é interpretada como fraqueza por seus compatriotas. Sobretudo nesse momento entra em cheque a própria identidade de Stoner e nós, juntamente com ele, notamos, perplexos, que sua validade e utilidade como pessoa realmente só se dão no contexto acadêmico, incapazes de transcender o cargo de professor e atuar nos campos sociais.

  Aí então evidencia-se o mais marcante traço de Stoner: seu comodismo extremo, inércia tão exacerbada que transforma-se em covardia. O personagem vive em um estado vegetativo, aceitando passivamente as condições que lhe são impostas, sendo por isso prejudicado mesmo no ambiente de trabalho que antes lhe dava ânimo. Recai sobre ele uma espécie perigosa de niilismo, do qual ele não pode escapar:

Ele chegara àquela idade em que, com crescente intensidade, ocorria-lhe sempre a mesma pergunta, de tão essencial simplicidade que não dispunha de meios para enfrentá-la. Via-se perguntando a si mesmo se sua vida valia a pena ser vivida. Se alguma vez valera. Era uma pergunta, suspeitava, que mais cedo ou mais tarde ocorria a todos os homens. Mas se perguntava se ocorreria aos outros com tamanha força impessoal como viera a ele. (…) Sentia um prazer triste e irônico ao pensar que o pouco conhecimento que conseguira adquirir o levava a essa conclusão, e que, no fim das contas, todas as coisas, até mesmo tudo que tinha aprendido e que permitia que ele compreendesse isso, eram fúteis e vazias, por fim reduzidas a um nada que não conseguiam alterar. (p.196-197)

 Embora muito inteligente e excelente mestre, nem sequer passa pela cabeça de Stoner valer-se do seu conhecimento como base para obter prestígio de qualquer categoria, social, econômico ou mesmo pessoal. Ele se satisfaz com aquilo que lhe foi oferecido e, desde que possa lecionar, permanece inerte, passivo para com tudo o que lhe vai ocorrendo.

  É interessante perceber que, apesar dessa prostração limitadora, Stoner é uma personagem psicologicamente complexa, de tamanha profundidade que, ao final de sua narrativa (cujo desfecho é extremamente impactante e simbólico), mostra-se impossível ao leitor determinar com convicção se o protagonista teve a vivência que desejava, se o seu fim foi trágico ou bem-fadado, se ele pode ser considerado herói de sua história ou mera sombra da própria vida. A complexidade de William Stoner é assim impressionante porque aproxima-se de todo e qualquer cidadão comum; achega-se a todos nós, presumíveis meros leitores de John Williams.

Tamy Ghannam (contato@literatamy.com)

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20 anos, São Paulo, Letras. Apaixonada por literatura, compartilhando experiências literárias através da internet.

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