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SANGRADOURO

de Martim César

Tamy GhannamTamy Ghannam

Sangradouro (2018) é um livro de contos ambientados no Rio Grande do Sul, cujo cenário principal é a cidade imaginária de San Servando. Ao retomar episódios da história de construção do sul do país, inclusive pelo resgate de figuras reais como personagens ativos ou aludidos em seus contos, Martim César recupera as raízes históricas da região onde nasceu, refletindo nas narrativas não apenas sua vivência de homem criado na fronteira, como também sua formação musical e sua experiência enquanto poeta. Bebendo das fontes da literatura fantástica latino-americana, a coletânea localiza suas estórias no território das divisas entre Brasil e Uruguai para reforçar os traços fronteiriços que habitam nas camadas mais profundas da essência humana, desse modo ultrapassando o terreno geográfico que toma como base, sem, contudo, deixar de tê-lo como fundação.

capa escolhida - sangradouro.cdrA temática dos limites e a matéria histórica aparecem já no conto inicial do livro, “O labirinto jesuíta”. Nele, um grupo de três pesquisadores vem da cidade para o espaço rural em busca de uma gruta lendária e é recebido por um indígena que servirá como guia da região. Toma lugar uma espécie de batalha silenciosa entre o urbano e o rural, regularmente tido como menos desenvolvido e até atacado pelos povos ditos esclarecidos da cidade. De modo astuto, arma-se uma teia que envolve os personagens em prol de um acerto de contas histórico, tão impune quanto os ataques fundadores da civilização brasileira.

Há uma certa atmosfera de mistério que sustenta não só esse primeiro conto, como a maior parte dos textos que compõem o livro. É o caso, por exemplo, de “Numa noite como esta”, que, embora não tenha a História como elemento essencial, é uma das mais consistentes narrativas dentre as apresentadas, justamente por aproveitar a incompreensão para edificar, de modo sólido, sua estrutura labiríntica, que faz o leitor passear pelos corredores de uma ficção muito bem arquitetada. Nela, um pintor produz um quadro durante uma noite de tempestade e é confrontado pelo próprio passado, descobrindo mais sobre si mesmo do que poderia supor.

A questão da identidade, aliás, é outro elemento basilar do livro, tanto em termos de coletivo, se pensarmos a identidade sulista e o perfil brasileiro traçado pelo conjunto dos contos, quanto em termos de indivíduo, se considerarmos a exploração da personalidade dos protagonistas dos contos. Em “Mau Agouro” dá-se a descrição de um conflito entre contrabandistas e policiais, alternando o ponto de vista narrativo de integrantes de um grupo para outro. Cada um dos personagens, enquanto sujeito, carrega em si um traço identitário que o torna coletivamente identificável, reconhecido como aliado ou inimigo, quer ele queira ou não. A trama do conto explora os limites entre o eu e o outro, ora apontando as semelhanças que aproximam adversários, ora demonstrando o quanto a identidade pode ser perigosa, perpetuando, às vezes de maneira involuntária, conflitos seculares entre determinados círculos sociais. Também o conto “A confraria” comprova a importância da identidade ao indivíduo e a seu entorno, ao trazer um personagem, ainda bastante jovem, condenado pelas atitudes do pai assassinado, marcado pela sua condição identitária e inerente de filho.

Todas os aspectos formais do livro, desde a escolha certeira dos narradores de cada texto até a utilização da História como respaldo mais ou menos atuante nas intrigas, revela a grande competência de César para elaborar narrativas. A atmosfera nebulosa dos textos, que envolve em neblina alguns dos episódios narrados sem, no entanto, ocultá-los por completo, evoca alguma coisa dos tradicionais contos russos, como os de Gógol e Dostoiévski, uma vez que ancora os acontecimentos em determinado espaço geográfico e período político-social, ao mesmo tempo em que toca certos pontos universais do existir, valendo-se da nebulosidade como potencializador do discurso.

Além disso, também ecoa nos contos de César o ritmo das narrativas orais, trazendo à tona a tradição do conhecido contador de histórias gaúcho, antepassado do autor, que soube trazer à grafia a cadência da oralidade formadora do Rio Grande do Sul. A inspiração dos causos auxiliou o escritor, o suficiente para que suas narrativas recolham do imaginário popular universal determinados elementos bastante recorrentes nas histórias de mistério, transcrevendo-os à sua literatura escrita revestida de regionalismo.

E o que mais se notava, isto sim, era o cheiro a couro e a carne podre, de se sentir a légua de distância. Carne salgada quarando em longas filas. Estaqueadas. E havia os primeiros casarões sendo erguidos, ao preço das mãos escravas, e do sangue de cada boi. Adornos e arabescos sendo postos nas fachadas, tudo comandado por gringos que chegavam em barcos, desde terras distantes, com seus sotaques raros. Com suas roupas e costumes, com seus hábitos que no princípio serviam de troça aos lugarenhos mais sisudos. E ali, logo ali, o vermelho sangrando os arroios; e estes, feito artérias, buscando as águas do rio. Sangue e água. Água e sangue. Dependendo do local, se perto do escoamento dos saladeiros, às vezes até mais sangue que água. O rio, nesse então, era uma carótida sangrando, uma jugular cortada. As garças manchando os seus impecáveis palas brancos no vermelho do gado sacrificado. (2018, p. 94)

Por fim, cabe retomar o título do livro como palavra representativa da obra. “Sangradouro”, além de fazer referência a um espaço de passagem do Rio Grande do Sul, alude à escravidão negra e ao extermínio indígena sangrentos, à miscigenação forçada e assassina desses povos que fundou e enriqueceu o estado sulista e, por extensão, todo o país. A palavra remete também ao local em que o gado é abatido diariamente nas charqueadas gaúchas. Do sangue dos homens e dos animais forma-se um rio vivo, cujo movimento é impecavelmente capturado pela prosa despojada de César.

O realismo mágico de Sangradouro descreve de modo surpreendentemente real algumas facetas fantásticas da identidade brasileira, reunidas em contos que mais parecem ser narrados por algum contador de histórias que acompanhou a formação do Brasil desde os primórdios, atento aos elementos maravilhosos que integram sua bandeira.

Tamy Ghannam (contato@literatamy.com)

EDIÇÃO RESENHADA:

capa escolhida - sangradouro.cdr

Editora Movimento (2018)

167 páginas

Brochura

Assista também ao vídeo sobre o livro no canal LiteraTamy: 

Esse texto é um publieditorial, cujo conteúdo reproduz integralmente a opinião do
LiteraTamy.

22 anos, São Paulo, Letras. Apaixonada por literatura, compartilhando experiências literárias através da internet.

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