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Reminiscências

Tamy GhannamTamy Ghannam
  Reminiscências. Anamnese, recordação, lembrança, rememoração. Elas são a matéria do livro de Marcelo Nocelli. Através de registros de um tempo já perdido, o autor reconstrói em seus contos de atmosferas cotidianas o que há de marcante nas situações alegadamente banais, acrescentando traços sutis de sua visão particular para moldá-las, como é típico da memória, valendo-se de um prosaísmo apetitoso que desperta o desejo do leitor de permanecer ali, vistoriando os terrenos memorialísticos de cada protagonista.
  O texto que inaugura a obra, “Remissão”, remete a um tópico delicado que inspirou também Karl Ove Knausgård a iniciar sua aclamada série de livros Minha Luta: a morte do pai. É com crueza e objetividade semelhantes às do escritor norueguês que o narrador do conto viaja novamente à cidadezinha natal e precisa digerir o reencontro com familiares distantes, com os quais já não mantinha contato, e com o seu pai, agora defunto, embora ainda “sério, imponente e autoritário como sempre”. A concepção da figura paterna como personalidade ditatorial transpassa a maior parte das histórias de Reminiscências e além de nos causar desconforto e revolta, nos faz pensar em tantas simbologias que Freud explicaria. As relações familiares como um todo são reavaliadas por narradores que, já maduros, regressam ao seio da família, à rotina doméstica, a acontecimentos traumáticos da juventude, e revisam o que passou de acordo com novos valores.
     Talvez o que mais chame a atenção no conto inicial e que perpassará os seguintes seja a ideia de mudança. Revisitar o terreno das memórias por si só já compreende uma experiência turva, nublada pelos recursos tendenciosos do afetivo que invariavelmente privilegia uma ou outra impressão que foi (ou passou a ser) mais forte no momento, modificando o que aconteceu de fato. Porém, as mudanças nos contos de Nocelli não são apenas consequências do processo de lembrar-se, mas também são causa, a comichão que leva os personagens a retornar ao já transcorrido para buscar o ausente, seja uma resposta, uma explicação, ou até um entusiasmo desaparecido.
  Assim, o que está em jogo na maioria dos contos de Reminiscências é a insatisfação, a incapacidade de aceitar o quadro atual e a tentativa de volver ao decorrido para buscar as razões desse descontentamento. Por isso, os textos são tão intimamente humanos. Reconhecemos nos personagens nossos próprios desprazeres e os mesmos mecanismos que já experimentamos utilizar como solução ao que incomoda. Tal ressignificação pela memória sempre foi um assunto intrigante, já que o saudosista que invoca o passado é sempre uma espécie de autor que, construindo novas óticas para enxergar o antigo, arquiteta ao mesmo tempo uma nova história, depositando pesos de modo diferente do que fizera e alterando a relevância de cada detalhe dos acontecimentos.
  A morte é também uma presença constante nas narrativas, tanto no campo físico quanto no figurado. Há continuamente alguma coisa que perece, mas permanece na psique dos personagens como potência que impulsiona o movimento de retorno. Ela adquire novos significados e sua aceitação evolui – ou não – de acordo com o amadurecimento dos sujeitos dos contos, que precisam lidar com ela. O insuperável, o acolhimento, o alívio, a nostalgia, a solidão e o renascimento são algumas das facetas que trajam o morrer em Reminiscências. Outra das lutas que elaboram o livro é o embate entre a vontade de ser e o que realmente se é. Muitas das reminiscências advêm da consciência da insuficiência dos personagens. Alguns buscam preenche-la com aparências, outros pelo capital, com relacionamentos tóxicos ou através da atividade sexual, mas o fracasso é quase total e a deficiência acaba sendo cambiada pela frustração.
  A alternância do tom de alguns contos é possivelmente a única ressalva a ser feita em relação ao livro como um todo. Provavelmente o autor tenha inserido textos mais descontraídos e inesperados justamente para quebrar a sobrecarga soturna que a sequência de histórias permeadas por decepções e desgostos causaria. No entanto, a manutenção dos temas lúgubres formatados pela linguagem prosaica do escritor poderia conceder à obra um arrebatamento ainda maior, superior ao alcançado.
  Apesar disso, Reminiscências é verdadeiramente instigante pelo revirar do que já foi. A dificuldade de aceitar o passado como finalizado e imutável, passível do esquecimento, rendeu a Nocelli uma obra que atinge seu objetivo com distinção: registrar o transcorrido para que ele subsista e sobreviva com toda a sua
força.
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 O livro é uma publicação da jovem editora Reformátorio e conta com um projeto gráfico excepcional, esteticamente impecável e agradável de ler. Comprando na Amazon através deste link, uma pequena parcela vai para o LiteraTamy.

Tamy Ghannam – LiteraTamy

(contato@literatamy.com)

* Crédito da imagem: A imagem é de autoria do Divino Studio, também responsável pelas duas fotografias que integram o livro, e foi retirada do seguinte link: <https://www.facebook.com/divinostudiofotografias/photos/a.690424147638226.1073741833.365047800175864/690424934304814/?type=3&theater>. Acesso em: 20/11/2016

20 anos, São Paulo, Letras. Apaixonada por literatura, compartilhando experiências literárias através da internet.

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