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Os viajantes & outras narrações breves

Tamy GhannamTamy Ghannam

  Conhecer o mundo inteiro é uma das aspirações de várias pessoas. Viajar e entrar em contato com diferentes culturas e hábitos ao redor do planeta é um luxo que muitos gostariam de desfrutar e que já inspirou livros, músicas e filmes aclamados pelo público que em sua maioria adoraria empreender viagens pelo globo. Mas e se a Terra já estivesse suficientemente explorada, ser um viajante terrestre não fosse mais interessante e a procura agora estivesse em destinos extraterrenos?

  Partindo dessa ideia Ronald Polito constrói a primeira parte de Os viajantes & outras narrativas breves, com mais particularidades: vida inteligente fora da Terra, por exemplo, há tempos deixou de ser novidade. Nosso planeta, aliás, perdeu qualquer exclusividade que possuía até então. As pequenas narrativas que compõem o capítulo inicial do livro trabalharão justamente com essa nova perspectiva de universo, descrita de modo descontraído e convincente, ultrapassando sem complicações o estranhamento inicial do leitor afeito às convenções e que inesperadamente se deparará com uma temática inovadora.

  Aos poucos o autor brinca com o cosmo que criou de maneira a nos fazer crer que nem tudo o que consta nesses contos, aparentemente inofensivos, está assim tão distante de nossa realidade. Os extraterrestres não diferem-se de nós em sua essência; muitos deles carregam consigo a mesma pretensão de serem a vida mais inteligente das galáxias sem, contudo, abrirem mão da também nossa curiosidade caçadora de informações sobre o desconhecido, sedentos pela custódia da verdade absoluta acerca do espaço no qual estamos todos inseridos. A insatisfação e a prepotência humanas ancoradas à incessante procura por aquilo que consideramos como desenvolvimento e saber ilimitados são suficientemente potentes para sobreviverem em qualquer planeta, sob quaisquer atmosferas. É divertidíssimo acompanhar as excêntricas descobertas dos viajantes, observar as semelhanças entre nós e os povos de outros planetas e adentrar episódios deslocados do mundo já conhecido pelos homens, estórias com argumentos pouco explorados mas inteligíveis aos não leitores de ficção científica, como eu.

  A transição à segunda seção da obra é nada sutil, pelo contrário, chega a ser chocante. A mudança súbita de conteúdo e narrador atrapalha, sim, o ritmo e a fluidez da leitura em um primeiro momento. Os contos agora são de tom mais íntimo e talvez esse seja o único elo entre eles, uma vez que os temas alternam-se extremamente. Sob a alcunha de “Outras estrelas”, abordarão o amor romântico, o exercício problemático da escrita, o cíclico surrealista e o heroísmo, em pequenos excertos que exploram diferentes construções formais. Embora seja bruscamente destoante do anterior, o segundo conjunto de textos apresenta uma das mais marcantes composições que já li e que me fez recuperar completamente a atenção pelos Viajantes, chegando ao ápice em “As Voltas”, terceiro segmento do e-book.

SHOW

Foi ao cinema sozinha. Sentou-se e, com o desenrolar do filme, começou a se identificar cada vez mais com a personagem, com quem possuía uma enorme semelhança não apenas física, mas também biográfica. Tinham até o mesmo nome. A semelhança era tão extrema, que por um momento pensou em ter entrado numa fita de reality show onde a única pessoa que até aquele momento não tinha sido esclarecida sobre o que estava se passando seria ela própria, descobrindo afinal filmada sua própria vida. E teve certeza disto quando a personagem, vestida com a mesma roupa que ela trajava naquele exato momento, foi ao cinema sozinha.

 Aqueles que já leram Kafka imediata e facilmente reconhecerão a referência à mais conhecida obra do escritor tcheco, A Metamorfose. Valendo-se da premissa de transformação do homem em inseto monstruoso e de toda a carga simbólica de tal transfiguração, Polito explora inúmeras possibilidades de releitura da obra kafkiana, também elas carregadas de sentido – até onde uma metamorfose pode ter. Naturalmente, o autor tece críticas à condição humana através delas e converte narrações breves em reflexões profundas pelas alegorias e ressignificações.

  Em “Cenas circenses”, capítulo final do livro, Ronald trará o circo como cenário e seus personagens típicos (palhaços, amazonas, mágicos e plateia) como protagonistas dos contos. No entanto, mesmo lidando com vocabulário bastante significativo ao contexto, o autor acaba fincado no lugar comum, difícil de evitar quando se tratando de uma matéria tão característica quanto o espetáculo circense, já explorado abundantemente. Ainda que não sejam de forma alguma contos ruins, eles desafinam em qualidade dos outros contos, muito mais originais e bem desenvolvidos.

  De modo geral, Os viajantes & outras narrações breves é instigante e atrativo a quem pretende afastar-se do realismo típico, sem contudo abandonar as questões existenciais e suas problemáticas. Como poeta, tradutor, e portanto conhecedor das palavras, além de notavelmente criativo, Ronald Polito é capaz de elaborar pequenos textos que podem tanto ser lidos distraidamente quanto meditativamente. O livro é capaz de agradar diferentes públicos, excelente alternativa para quebra do spleen dominical que suplica ao leitor um deslocamento a superiores universos, transições que alcancem originalidade.

 ONDE ENCONTRAR A OBRA:
 

O livro foi publicado pela editora e-galáxia, cujo lema é “Mais livros, menos papel”, ou seja: ele está disponível apenas em formato digital e pode ser acessado por diversas plataformas de leitura, inclusive pelo computador com sistema Windows, o que é bom para o planeta e também para no nosso bolso, não é mesmo? Comprando pela Amazon neste link, você ajuda o LiteraTamy.

 

 

 

 

Tamy Ghannam

(contato@literatamy.com)

20 anos, São Paulo, Letras. Apaixonada por literatura, compartilhando experiências literárias através da internet.

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