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O terraço e a caverna

Tamy GhannamTamy Ghannam

O terraço e a caverna, de Maurício Limeira, livro ganhador do prêmio Dalcídio Jurandir em 2015, é um romance que recupera duas personagens marginais à sua maneira. Física e socialmente distantes, Quinha, com onze anos, e Paco, com doze, despropositadamente aproximam-se pelo isolamento em que vivem ambos.

Residente da zona sul do Rio de Janeiro, em uma luxuosa cobertura, depois de passar por experiências traumáticas na escola Quinha desenvolve a Síndrome das Pessoas Inexistentes, transtorno psicológico que a impede de ver, ouvir e se relacionar com outros seres humanos. A disfunção surge como um bloqueio da menina contra aquilo que outrora lhe causara mal, mantendo-a numa ilha interna que lhe concede certa resistência à inevitável crueldade das pessoas.

Capa

Como apoio ao retiro de Quinha, sua mente projeta Moisés, um gato que incentiva as tendências solitárias da criança e a impossibilita de agir por si só. O único mar aberto pelo felino é o da interioridade da protagonista, que graças a ele passa a mergulhar cada vez mais fundo em suas próprias águas. Quinha agarra-se ao próprio delírio como a uma tábua de salvação que facilita o distanciar-se das outras pessoas. Criação de sua mente, o arguto bichano é dotado de uma inteligência questionadora que reflete a curiosidade velada da criança. Moisés guia Quinha por labirintos íntimos repletos de fortes símbolos, como espelhos e nuvens, que a levam a um tipo latente de autoflagelo, na medida em que ela mesma também pertence à categoria humana de que pretende esconder-se.

Para suportar o mal, é preciso coragem para olhar o que existe dentro dele. A dor é parte de nossa vida da mesma forma que o sol. Quinha não sabe disso. Está tentando fugir de algo que não conhece, e que não sabe por que tanto a machuca. (p. 44)

É apenas através da internet que a garotinha entra em contato com outras pessoas, a quem ela considera personagens. Quinha lê as histórias criadas por essas figuras sem jamais respondê-las, absorvendo-as como narrativas inventadas. Em um desses passeios pela rede, a menina acaba por conhecer um garoto de postagens agressivas e coléricas que a instigam. Do outro lado da tela computadorizada está Paco, menino paraplégico que vive em um miserável espaço subterrâneo, produto de uma obra inacabada do metrô da cidade. Ele apelida a sua casa de “caverna”, onde está fadado a recolher-se, dadas suas condições físicas e econômicas.

Enquanto Quinha empenha-se em conservar-se apartada em si mesma, o mais afastada possível de sua família, Paco, pelo contrário, dedica-se a conquistar a atenção paterna que lhe é negada. O menino busca aproximar-se de seus familiares e enxerga no convívio interpessoal uma promessa de felicidade, promessa esta inalcançável. Nos seus textos publicados online, Paco transmite uma hostilidade decorrente da condição de não-pertencimento a que está submetido.

Cavei um buraco. Fundo.

Pode jogar uma moeda,

tente ouvi-la cair.

Cavei um buraco.

O ideal esconderijo.

Cavei, e depois de admirar

o meu feito, convoco

todas as pessoas do mundo.

Venham ver o buraco que eu cavei.

Todos se curvam, então,

para olhar.

E todos eu empurro,

para que caiam.

(p. 54)

Ela lê histórias, ele as escreve. O mundo virtual oferece a ambos muito mais esperança do que o mundo real é capaz de lhes ofertar, aproximando-os pelo semelhante isolamento dos dois. Paco está condenado a viver em uma caverna real, enquanto Quinha opta pelo recolhimento em uma caverna imaginária, cada qual com sua própria deficiência. Nessa espécie de alegoria platônica, o garoto, ciente da grandeza do mundo, desperta na menina a vontade de deixar marcas, de permanecer. Assim como no mito da caverna de Platão, a solução está em permitir-se enxergar mais do que acostumou-se a ver, para então acessar a própria interioridade a partir da alteridade.

Nossos olhos não passam de mau narradores, mostrando um mínimo do que existe e nos deixando à própria sorte num campo extenso e repleto de falhas. Nossas imagens, nossas ideias e nossas conclusões são todas incompletas. O que enxergamos, geralmente é diferente do que realmente é. (p. 41)

Assim, Quinha e Paco, de classes sociais e residências extremamente opostas, associam-se por fraquezas comuns e promovem transformações irreversíveis na vida um do outro. Escrito com sensibilidade e lucidez, explorando aspectos sociais e psicológicos por meio de metáforas e descrições realistas, O terraço e a caverna propõe ao leitor um exercício de pensar o outro, de deixar a caverna particular para explorar os terrenos desconhecidos do próximo, de modo a redecorar a própria subjetividade.

Tamy Ghannam (contato@literatamy.com)

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Esse texto é um publieditorial, cujo conteúdo reproduz integralmente a opinião do
LiteraTamy.

20 anos, São Paulo, Letras. Apaixonada por literatura, compartilhando experiências literárias através da internet.

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