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O poeta e o cantadô: uma Odisseia caipira

Tamy GhannamTamy Ghannam

Uma das primeiras obras da literatura ocidental, a monumental epopeia Odisseia, de Homero, narra a trajetória de Ulisses em busca de sua pátria. O poema homérico tornou-se sinônimo de excelência literária, dispondo impecavelmente forma, sonoridade e conteúdo, de modo a originar um dos pilares sobre os quais sustentam-se as tradições literárias posteriores. De modo mais descontraído, sem o intuito épico da narrativa grega mas, ainda assim, cativante, Paulo Rubens Gimenes constrói uma odisseia roceira em seu livro O poeta e o cantadô: uma odisseia caipira, recuperando à sua maneira os mais relevantes elementos da produção de Homero.

FOLDER TERRA BRASILISA narrativa introdutória do livro já prepara o leitor citadino para deixar o ceticismo de lado e adentrar o universo de histórias quase fantásticas do sertão, território brasileiro mais do que propício à gestação do realismo mágico por excelência. A linguagem da historieta que inaugura a obra de Gimenes reproduz as transformações linguísticas e a sonoridade peculiar da fala caipira, e seu narrador, “contadô de causos” apaixonado por seu local de origem, aponta a ignorância do povo da cidade que despreza as tradições sertanejas, afastando-se da sabedoria que não floresce nas metrópoles.

Alternando contos, poesias e canções, os textos de O poeta e o cantadô valem-se tanto da linguagem formal quanto da deliciosa informalidade da língua falada nos sertões brasileiros em sua composição. O humor majoritariamente inocente, com pitadas de malícia inofensiva – mas altamente divertida –, além da menção a lugares reais, aproxima o livro de Gimenes às obras de João Guimarães Rosa, cuja influência aparece muitas vezes creditada e, em tantas outras, subentendida, deleitando os admiradores de Rosa que porventura visitam os sertões pelas veredas descritas por Gimenes.

Resquício forte da presença roseana na obra em questão são as diferentes representações do conflito entre cidade letrada pirrônica e sertão iletrado supersticioso. No entanto, enquanto Riobaldo, o instruído jagunço de Rosa, inveja seu interlocutor urbano e educado, os sertanejos das pitorescas narrativas do autor contemporâneo reconhecem possuir uma sabedoria peculiar que não se comercializa, nem tampouco se aprende em livros, mas apenas na prática, no convívio direto com o homem, com a terra e com a luta diária, elementos simbolicamente fundamentais à imagem literária e factual do sertão brasileiro.

“Mas eu sei, eu sei que isto tudo e muito mais é verdade. Que daqui do meu sertão, a lua é minha testemunha, quando a noite lá vem com seu silêncio e o seu breu é que as criatura da noite aparece e apronta suas travessuras.” (p. 13)

Assim como Odisseia estabelece, em certa medida, um retrato geográfico e cultural da Grécia e seus costumes à época, bem como Grande sertão: veredas o faz com relação ao sertão mineiro, O poeta e o cantadô: uma odisseia caipira traz contos que são como fragmentos, que, reunidos em uma só obra, oferecem um ligeiro panorama do sertão brasileiro, em suas inúmeras possibilidades de expressão.

Além das delicadas imagens poéticas que percorrem as histórias (“tempo fazedor de ontens”, “olhos calejados de vazios”) e revelam a sensibilidade do autor, a música também configura um componente essencial à singularidade da obra. Acompanhado por um CD, o livro propõe ao leitor, convertido em ouvinte, uma experiência extraliterária ao trazer 15 melodias “caipiras” – todas elas compostas por Paulo Rubens Gimenes, algumas em parceria com outros compositores – que complementam as narrativas grafadas, propiciando o equilíbrio entre oralidade e escrita tão importante à tradição sertaneja. As faixas musicais podem ser acessadas online através do seguinte link.

O talhe dado por Gimenes à temática sertaneja faz com que poeta e cantadô misturem-se de tal forma que, numa simbiose autêntica, ambos materializam-se em um desinibo Ulisses brasileiro, residente de um sertão espirituoso cuja força habita em cada trilha perscrutada e transformada em conto, poema ou canção.

Tamy Ghannam (contato@literatamy.com)

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Esse texto é um publieditorial, cujo conteúdo reproduz integralmente a opinião do
LiteraTamy.

20 anos, São Paulo, Letras. Apaixonada por literatura, compartilhando experiências literárias através da internet.

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