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Meias Verdades

de Veronica Botelho

Tamy GhannamTamy Ghannam

“O mundo cognoscível é incompleto se visto de um só ponto de vista, incoerente, se visto de todos os pontos de vista de uma vez, e vazio, se visto de nenhum em particular”.

A frase acima, de Richard Schweder, é a epígrafe de Meias verdades e sintetiza precisamente aquilo que o livro se dispõe a fazer: demonstrar a relatividade da verdade, álibi que valida as diferentes óticas defendidas pela autora Veronica Botelho. A coletânea de curtas crônicas ensaísticas propõe um levantamento de reflexões sobre assuntos universais e inesgotáveis como o tempo, o ego, a memória, a liberdade, a raça, a política e a escravidão contemporânea. Com base em seus estudos em psicologia, antropologia cultural, medicina e direito, a escritora brasileira desenvolve com propriedade os conceitos que aborda.

O ponto de partida da obra é um breve estudo sobre o tempo e sua influência sobre o ser humano como sujeito indefinido, em constante movimento de formação. Os ângulos observados por Botelho estruturam certa visão positiva do tempo enquanto arquiteto de uma solidão produtiva ao homem. Segundo a concepção temporal da antropóloga, a passagem do temeias verdades2mpo gera a noção do aqui e do agora responsáveis pelo carpe diem favorável ao aproveitamento da vida finita das criaturas.

No capítulo seguinte, ao dissertar sobre ego, memória e liberdade como imagens conjuntas, além de definir o que cada uma delas traduz em seu repertório semântico, a autora traça também um retrato da convivência de ambas dentro da construção que é a identidade, esta como atributo particular ou como qualidade coletiva. As três abstrações em pauta só existem pela sua relação umas com as outras, e diante dessa constatação a autora vai ainda mais longe, defendendo o esquecimento como uma necessidade vital ao equilíbrio necessário para que se estabeleça uma personalidade de fato.

Mas é sobretudo no que diz respeito às considerações de Botelho quanto à definição de raça e suas ramificações que Meias verdades mais chama a atenção. Na posição de brasileira negra que mora fora do Brasil, Veronica Botelho tece um relato muito pessoal de sua experiência enquanto estrangeira, transparecendo honestidade e entrega através de suas palavras. A escritora busca apontar preteridas diferenças entre racismo e xenofobia e, valendo-se das diferenciações que delineia entre eles, afirma jamais ter sido discriminada fora do Brasil por sua cor de pele, mas apenas por sua nacionalidade; em outras palavras, Botelho admite ter sido vítima de xenofobia fora de sua pátria, mas vítima de racismo apenas quando em território brasileiro. É no mínimo interessante ter acesso ao ponto de vista da autora enquanto sujeito em seu reconhecido lugar de fala, estar habilitado a entender, ainda que minimamente, seu posicionamento em relação ao preconceito racial e à vivência comparada entre viver no Brasil e viver no exterior como mulher negra:

“No Brasil eu tenho que lidar com o fato de que no Sul eu sou nordestina, e de que no Nordeste eu sou negra. E em vários lugares a combinação das duas coisas é motivo para ser discriminada ainda mais. Tenho que responder na frente das minhas filhas a comentários aparentemente inocentes como: “Nossa, a maiorzinha é moreninha clara, até diria que poderia ser sua filha, mas a menorzinha é muito branca, como é possível?”. Situações como essa fizeram com que minhas filhas, que até então nunca tinham prestado atenção nas diferenças de cor de pele, começassem a se questionar – e, durante um tempo, quando se chateavam com algo que eu não as deixava fazer, elas me respondiam que não eram minhas filhas, porque nossas cores são diferentes.”  (p. 37)

Curiosamente, a moça que sofre com o racismo brasileiro – e nos prova isso com trechos como o destacado acima – é a mesma que crê em um futuro “imaginário coletivo desprovido de mitos estereotipados”, que acredita na conscientização do ser humano rumo à extinção do racismo e de outras práticas segregacionistas. O otimismo de Veronica Botelho, ainda que em um primeiro momento pareça ingênuo, acaba atuando como um bálsamo surpreendente, esperançoso e potente, na medida em que mantém-se sustentado por todas as bases teóricas que constituem as já elencadas competências intelectuais da autora. Adotando um tom pessoal na composição de seus textos, o que a antropóloga faz é aproximar o leitor de suas reminiscências e considerações para, a partir delas, despertar em que lê certa comichão que impele à ação, rumo ao exercício de pensar e agir em prol da coletividade constitutiva do sujeito particular.

Os conceitos versados em Meias verdades são questionados como temas contemporâneos, ao mesmo tempo em que vão sendo elaboradas reflexões acerca de seus funcionamentos no passado e sobre seu devir.  Os finais de cada capítulo trazem citações de grandes nomes do pensamento que corroboram a visão desenvolvida pela autora durante cada texto, refletidos em suas defesas e pensamentos. É de fato cativante deparar com notáveis figuras do saber em textos aparentemente descontraídos e assaz pessoais, sendo finalmente transferidas à realidade por excelência, para além do mundo teórico, incorporadas à lente do sujeito que vê e experimenta o mundo.

Cabe aqui destacar “Amantes”, a última narrativa do livro. De caráter ficcional, a crônica sobre o encontro e o convívio de dois amantes destoa sensivelmente do restante da obra, provocando a divertida sensação de que todos os ditos anteriores poderiam ser, na realidade, fábulas muito bem travestidas de ensaio. A surpresa que a inserção do último texto gera no leitor é reforçada pela experiência material propiciada pelo oportuno projeto gráfico da obra, que acompanha as ideias de mediano e de relatividade. Afinal, como argumentado pela própria Botelho, quem poderia garantir que a ficção é o oposto da verdade, sendo esta tão relativa?

Tamy Ghannam (contato@literatamy.com)

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20 anos, São Paulo, Letras. Apaixonada por literatura, compartilhando experiências literárias através da internet.

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