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Goethe!

Tamy GhannamTamy Ghannam

  Quem nunca ouviu falar de Os sofrimentos do jovem Werther (1774) e da onda de suicídios que seguiu sua publicação? Lembro-me que quando soube disso, logo me perguntei que tipo de autor seria capaz de escrever algo tão poderoso e quais circunstâncias o levariam a isso. Foi na biografia cinematográfica romanceada Goethe! (2010), dirigida por Philipp Stölzl, que obtive respostas às minhas perguntas. Para além de demonstrar que Goethe foi um sucesso da literatura ainda em vida, o filme acompanhará a trajetória do escritor desde sua – supostamente – conturbada juventude até o momento em que seu trabalho é finalmente reconhecido, passando pelo processo de escrita de uma de suas obras-primas, Os sofrimentos do jovem Werther.

  Johann Wolfgang von Goethe (1749 – 1832) fazia parte da burguesia de Frankfurt e, sendo membro de uma camada social influente, esperava-se que ele atendesse a certas expectativas. Nesse contexto ele vai a Leipzig estudar Direito, seguindo os passos de seu pai, fator determinante para sua futura carreira como escritor. A obra de Stölzl foca justamente esse período de desenvolvimento e aprendizagem de Goethe até 1774, quando Werther vem ao mundo. Talvez uma das razões para que o romance epistolar seja tão impetuoso assente-se em seus resíduos autobiográficos. O suicídio de um grande amigo do autor, concomitante à desilusão amorosa pela qual passara, foram decisivos ao seu amadurecimento literário. O relacionamento com  Charlotte Buff é retratado durante o filme com ênfase. Sem exageros, seria possível afirmar que Goethe! é uma película sobre o primeiro amor e suas consequências, livre de compromissos com a fidedignidade factual.

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  O protagonista Goethe arquitetado seria facilmente confundido com o próprio Werther, e isso é proposital. O excelente intérprete Alexander Fehling (que junto com Miriam Stein protagoniza um dos casais mais inspiradores aos quais já assisti) confere ao personagem uma jovialidade inesperada, praticamente inimaginável aos que conhecem a obra clássica e séria do escritor alemão. Destoando do todo monótono e uniforme da época, Goethe é construído de modo apaixonado, rebelde e despreocupado, tendo o amor como guia até a última cena, numa descontração que certamente não corresponderia plenamente ao original. Contudo, sendo Goethe um dos maiores representantes do romantismo mundial, preencher o filme sobre ele com elementos românticos não é de todo absurdo, nem tampouco prejudicial, pelo contrário; a atmosfera lírica da produção contribui para um envolvimento profundamente real entre a história e o espectador, que se sentirá ainda mais próximo de Johann e Werther, jovens distintos se em comparação à maioria da época, embora cada um à sua maneira. A singularidade do escritor é inquestionavelmente destacada pelos recursos cinematográficos intencionalmente escolhidos para sua estruturação, bem como pelas oposições enfáticas que reforçam as características principais do protagonista.

  Como bem apontado por Cássio Starling Carlos, “Goethe! pode incomodar os puristas, que não reconhecerão o autor consagrados dos estudos e das enciclopédias. O filme, de fato, nem tenta agradar a esse público, pois o alvo que quer alcançar é o leitor avesso à pompa que costuma acompanhar os clássicos”. Um espectador desatento, ou que desconheça o trabalho literário de Goethe, porém, poderia aceitar passivamente a cinebiografia como fiel aos fatos, e por isso é essencial um aparato crítico que exponha a conjuntura parcialmente ficcional do filme. A coleção Folha Grandes biografias no cinema encaixa-se perfeitamente nesse papel. Além de acompanhar, obviamente, o disco com o filme integral em formidável resolução, o conjunto traz um livreto esteticamente atraente com informações complementares expressivas à interpretação de leigos, como eu, tornando a experiência ainda
mais rica.

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  Goethe! é o 13º volume cinebiográfico e conta com textos de Caio Liudvik (mestre do Departamento de Filosofia da USP), Cássio Starling Carlos (crítico da Folha) e Pedro Maciel Guimarães (professor do Departamento de Cinema da Unicamp), apinhados de indicações importantes e extras a respeito do próprio Goethe, complementos que sem dúvida são o diferencial da coleção. Por meio dela acessamos o depoimento de Thomas Mann sobre Goethe, a relação deste com Schiller, e sua contribuição à ciência, que o rendeu a alcunha de “precursor do evolucionismo darwiniano”. Além disso, também há a ficha técnica completa do filme e comentários acerca de seus aspectos visuais (os quais são, de fato, admiráveis).

  A produção de Stölzl é ousadamente encantadora e desperta naqueles que a assistem o interesse pela (re)leitura das obras de Goethe. O filme acata bem a proposta defendida e combina técnica e conteúdo no estilo romântico que certamente cativaria o próprio escritor.

ONDE ENCONTRAR?

 

 A coleção Grandes biografias no cinema está disponível nas bancas de jornal por R$19,90 cada volume e conta com 28 cinebiografias sobre personalidades importantes para a história mundial. Você também pode comprar as obras avulsas ou todas elas de uma vez através deste link.

Tamy Ghannam

(contato@literatamy.com)

20 anos, São Paulo, Letras. Apaixonada por literatura, compartilhando experiências literárias através da internet.

Comentários 1
  • Alexandre Melo
    Publicado em

    Alexandre Melo Alexandre Melo

    Os Sofrimentos do Jovem Werther foi um dos primeiros livros maduros que li na vida. Sabe, eu preciso reler ele, já faz tanto tempo… Essa coleção de filmes parecem bem legais Tamy, e a vida de Goehte deve ter sido bastante interessante. Ótimo post! bjs!