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Começa em mar

Tamy GhannamTamy Ghannam

“Alice Zuma – filha da mãe brisa e do pai diminuto, herdeira do mundo europeu desconhecido, a mulher do marido ausente, a mãe dos filhos banais, a nora da matrona malvada, a amante do amante flutuante, filha dos sonhos de Europa”. Tem-se aí o retrato da protagonista de Começa em mar, de Vanessa Maranha.

A mãe de Alice, espanhola, e o pai, português, refugiam-se na Bahia, fugindo do salazarismo de Portugal. Primeira figura masculina em sua vida, o pai, machista, “tinha para si que as mulheres eram seres inacabados. A azáfama às famílias de nascê-las, as filhas e não os varões, meninas de constituição pequena, sexo abrolhado e força pouca.” Ele considera a si mesmo um traidor de sua pátria desde que a abandona, vivendo sempre sob o espectro da insuficiência, da humilhação e do remorso que o impedem de expressar sua integridade, dada sua eterna condição de exilado. Do mesmo modo, a mãe permanece insatisfeita, como forasteira em terras que lhe são indignas em relação à Espanha, infeliz com o marido que lhe arranca da Europa. Nessa família de desajustados, Alice desde cedo precisa aprender a enfrentar a falta do que sequer conhecera, experimentando uma nostalgia do desconhecido que lhe constitui. A moça possui uma identidade híbrida, formada por três culturas inexploradas.

mar_cpJá crescida, Alice continua a ser o incompleto e a atrair a incompletude. Se quando criança dispõe de uma mãe distante da tradicional figura materna e de um pai intratável, acompanhando em sua própria casa o desenrolar de uma guerra fria, quando adulta casa-se com um marido “não-marido”, com quem gera filhos ausentes. A protagonista é uma espécie de ímã que magnetiza a mediocridade. Face à essa escassez, o mar surge idealizado, meio e instrumento de alcance da vida plena, possível acesso à inteireza inacessível por solo.

Sobre ela, dotada de olhos marinhos, dona das ventanias marítimas que invadem a terra, a influência do mar dá-se de modo mais expressivo do que em relação aos outros ilhéus. Para Alice, a água, sobretudo a salgada, é muitas vezes sinônimo de limpeza e renovação. Como é de se esperar do movimento de vai-e-vem das marés, o mesmo mar que lhe oferta também lhe toma, doando e extraindo com a mesma facilidade. Isso não diminui o encantamento da mulher pelo pélago, pois, em todo o caso, o mar é o único aspecto de sua vida ordinária a lhe conferir certa emoção, certa humanidade.

Quando finalmente empreende uma viagem via mar à Europa, tencionando descobrir mais sobre si mesma no continente de seus pais, Alice descobre que o não-pertencimento que lhe acompanha desde sempre, como uma condição primordial, faz com que o único lugar possível para si seja justamente o não-lugar, a terceira margem: o mar. O estrangeirismo pessoniano da protagonista lhe impõe o infindo retiro, revelado e admitido por ela enquanto viaja sobre as águas inconstantes. Aliado ao mar, o erotismo surge inusitadamente como elemento libertador à Alice, que assume a sua sexualidade enquanto abraça o mar como seu reino. O reconhecimento de ambos a aproxima de sua própria essência, tão buscada e até então silenciada.

O silenciamento impera também sobre as outras personagens femininas do livro, mormente por conta de seus relacionamentos amorosos com homens. Nas relações afetivas ou familiares, o conflito entre homens e mulheres é constante, quer seja por suas diferenças, quer seja por suas semelhanças enquanto seres humanos. A narrativa de Começa em mar profere essa voz feminina ainda calada, cedendo lugar de fala às mulheres da obra, para que sejam pronunciados os problemas que lhes vêm exatamente por serem quem são, mulheres, constantemente objetificadas, diminuídas, continuamente reduzidas à condição solitária de coisa e já cansadas desse reducionismo.

“Acreditava, quem sabe equivocadamente, que nascer mulher era uma solidão por si só. Entre uma e outra mulher haveria sempre um limite quase intransponível, e, em tendo chance, jugo, desde o batom e miúdas fraudes até as coisas de mais eloquência”. (p. 84)

O romance de Vanessa Maranha conta com a presença forte do feminino – mais de uma vez diferente (e até oposto) da feminilidade – em suas mais variadas formas, retomado por várias perspectivas, abrangendo classes, etnias e origens distintas. A autora não deixa de abordar temas que circundam o universo das mulheres e que, no entanto, são ainda evitados pela polêmica que geram, como maternidade indesejada, aborto e estupro, tocando em feridas que inevitavelmente fazem parte do que é ser do sexo feminino. Tudo isso reproduz-se através de um trato refinado da linguagem, refletido na escrita da autora como excepcional domínio poético das palavras.

Muito embora as definições em primeira pessoa das mulheres do romance sejam frequentemente declarações de fraqueza, uma vez que elas são levadas à autodepreciação, o livro contraria a lógica da mulher como sexo frágil e nos apresenta personagens femininas fortíssimas, exemplos vivos de resistência e superação. E como tudo começa em mar, dá-se sobretudo a partir dele o despertar da autoconsciência de que elas, como mulheres, são tão imponentes quanto as ondas, formadas mesmo na placidez da superfície oceânica, aparentemente tranquila, mas que acoberta a profundidade do que só tem início e não tem fim, como o tornar-se, cada qual à sua maneira, mulher.

Tamy Ghannam (contato@literatamy.com)

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Esse texto é um publieditorial, cujo conteúdo reproduz integralmente a opinião do
LiteraTamy.

20 anos, São Paulo, Letras. Apaixonada por literatura, compartilhando experiências literárias através da internet.

Comentários 2
  • Maria luiza
    Publicado em

    Maria luiza Maria luiza

    Gostei muito da sua resenha, Tammy: este é o seu nome de verdade? Estou perto do final do livro é verdadeiramente encantada com as várias facetas do feminino abordadas em uma chave poética, em um prisma Q nunca vi até hoje pintada com tamanho senso de profundidade e brilhantismo no uso da palavra e da emoção. Viva! Parabéns pela bela crítica.


    • Tamy Ghannam
      Publicado em

      Tamy Ghannam Tamy Ghannam

      Oi, Maria!
      O meu nome é Tamlyn. Fico muito feliz que tenha gostado da resenha. Esse livro da Vanessa é uma surpresa e tanto, realmente muito bom.
      Obrigada pelo comentário <3