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Cleópatra

Tamy GhannamTamy Ghannam

  Pensar em Egito é, invariavelmente, pensar em Cleópatra. Ao menos no imaginário ocidental, a rainha representa uma das mais fortes, poderosas e indestrutíveis figuras femininas. Representações cinematográficas adicionam beleza e sedução irresistíveis às suas características, compondo um potente símbolo de superioridade inabalável, capaz de permanecer conhecida por milênios em inúmeros territórios. O papel da sétima arte nessa construção emblemática é extremamente significativo. A personagem já foi interpretada por atrizes icônicas, sendo Elizabeth Taylor provavelmente a mais conhecida delas, embora por muito tempo tenha sido Claudette Colbert o sinônimo de Cleópatra.

  A produção de 1934, dirigida por Cecil B. DeMille, também retrata parte da vida da última rainha egípcia da dinastia de sete Cleópatras – certamente a mais famosa de todas elas –, desde o momento em que é traída pelo irmão-marido Ptolomeu 13, até seu fim trágico, passeando pelos amores dramáticos com os romanos Júlio César e Marco Antônio. Se em algum momento nos perguntamos o que a fez se destacar em meio a outras seis que carregaram consigo o mesmo nome, o próprio filme nos responde. Ainda que apresente a história permeada por ficção, como geralmente ocorre quando se trata de mostras sobre o Egito, Cleópatra elucida encantadoramente a trajetória da monarca durante o período decisivo ao destino do império egípcio, que levaria à soberania dos romanos. Mas, como bem dito por Gregory Balthazar sobre a imperatriz, “contar sua história é aceitar a imbricação do fato com o mito”, e tal consentimento deve estar igualmente presente na interpretação dos telespectadores.

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  Talvez o fator que esteja mais influenciado pela concatenação de mito e história seja o conceito de beleza levado em conta pelos diretores das películas para a construção fotográfica da protagonista. A concepção estética atribuída à personagem montada pelo diretor hollywoodiano é uma concepção do Ocidente do século XX, transportada a uma figura originalmente egípcia de 39 a.C. Naturalmente, essa ideação dialoga mais facilmente com quem a assiste, nos atrai e envolve, mas é também perigosa. Cleópatra foi uma rainha de muitas conquistas. O adjetivo que melhor a definiria é astuciosa. Porém, na representação de Hollywood (mas não apenas) muitas vezes essa astúcia deixa o campo da inteligência, da sabedoria que ela indubitavelmente possuía, e passa a figurar como propriedade do campo sensual, da sedução puramente carnal. Eu não seria ingênua ao ponto de crer que Cleópatra tenha aberto mão de seus atributos físicos para imperar, até mesmo porque são resquícios históricos os seus milhares de adereços imponentes, e famigeradas suas efígies de ostensivos adornos que os favoreciam, mas seria igualmente simplório acreditar que apenas por conta disso ela tenha se tornado a figura mágica que perdura até hoje. Em outras palavras: o prestígio de Cleópatra não pode ter como causa única sua beleza física.

  Sendo toda interpretação uma  leitura, é importante questionar até que ponto a protagonista de DeMille, constantemente vestida com figurinos lascivos e integralmente imersa em uma atmosfera libidinosa, carrega consigo traços anacrônicos, injustos com a sagacidade de Cleópatra que deveria estar em destaque ou pelo menos no mesmo nível de importância que suas qualidades físicas. Cássio Starling Carlos foi sensível a essa particularidade do filme, e aponta que essa soltura do corpo feminino em evidência não deve ser encarada como um ponto positivo ou emancipatório, uma vez que “essa liberalidade, no entanto, não se traduz em uma imagem afirmativa da mulher. Nesse mundo regido pela dominação masculina, o poder de Cleópatra se resume ao sexo. Quando seus amantes são abatidos, a ela só resta a autodestruição”.

1934: Claudette Colbert (1903 - 1996) plays the powerful Egyptian queen in the historical drama 'Cleopatra', directed by Cecil B DeMille.

De qualquer modo, a um público alerta fica evidente o aspecto menos histórico que carnavalesco da adaptação de DeMille, o que inclui a imagem quase que meramente sedutora da rainha egípcia, já que recursos oníricos e pomposos participam inteiramente do filme, mesmo durante as mais grandiosas conquistas e inclusive nos momentos de fracasso de Cleópatra: está tudo permeado de volúpia e luxúria. Sendo a primeira produção de Hollywood sobre essa figura tão representativa e produzida durante uma crise econômica que assolava os Estados Unidos, é em certa medida compreensível que o diretor tenha se concentrado no entretenimento que ofereceria ao público norte-americano toda a riqueza que este não poderia encontrar na realidade pela qual passava. Cássio Starling Carlos diz que “para o público dos Estados Unidos, naquele momento mergulhado em uma histórica crise econômica e em pleno desemprego, DeMille promete o máximo de escapismo, luxo e esplendor”, e a promessa foi cumprida com maestria. Quem hoje assiste à produção cinematográfica, porém, não sai da sessão tão convencido, e pode sentir falta de veracidade histórica na adaptação.

  A quem busca conteúdo sobre o filme, a publicação da coleção Folha Grandes Biografias no Cinema serve como vantajoso complemento, já que disponibiliza textos de apoio escritos por profissionais da área do cinema, curiosidades acerca da produção e sua ficha técnica completa. Como pura fonte de entretenimento, no entanto, Cleópatra não deixa nada a desejar. Dentro dos limites do bicromático preto-e-branco, o filme ganhador do Oscar de melhor fotografia, muito embora apresente personagens estereotipadas e uma apresentação histórica saturada pelo reduzido imaginário ocidental, traz consigo a competente intérprete Claudette Colbert, cenários excelentemente montados, repletos de objetos egípcios e monumentos romanos que já temos em mente, além de reproduzir alguns dos costumes mais distintivos da época e do lugar retratados. Se o objetivo de DeMille era oferecer escapismo ao público, seu êxito foi mais do que alcançado.

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20 anos, São Paulo, Letras. Apaixonada por literatura, compartilhando experiências literárias através da internet.

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