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As cidades invisíveis

Tamy GhannamTamy Ghannam

Em As cidades invisíveis, de Italo Calvino, Kublai Khan, imperador do império mongol, pede que o aventureiro Marco Polo lhe descreva com detalhes as várias cidades que fazem parte de seu domínio. O enredo aparentemente simples, trazendo alguém que conta histórias a um superior, é na verdade um terreno fértil à criação de reflexões e alegorias, figurando como uma temática profícua da literatura mundial desde As mil e uma noites. Na obra de Calvino, a habilidade de contar histórias terá igual força e também será de fundamental importância ao senso de sobrevivência humana. A partir da recuperação de um eloquente navegador de terras e mares que relata suas percepções acerca do que conhecera, o autor italiano acaba por reunir nAs cidades invisíveis aquilo que a professora Roberta Barni denomina de “toda a pesquisa do Calvino literato”. Cabe analisar de que maneira suas curtas narrativas são capazes de atingir tamanha dimensão.

Inspirado pela figura do verdadeiro Marco Polo, mercador e explorador veneziano cuja trajetória itinerante tem forte presença no imaginário ocidental, sobretudo na Itália e em sua tradição literária, Italo Calvino constrói um livro em que nada é dispensável, a começar por sua estrutura formal: passar os olhos pelo sumário da obra (composto por 55 cidades, todas elas com nomes femininos, que se desdobram em conjuntos de cinco por capítulo, dentro de 11 rótulos) já é por si só uma aventura.

29258201_1453857574737231_8786156434980077568_nSe em O corcunda de Notre-Dame Victor Hugo empreende uma ode à arquitetura como obra do homem e elemento representativo de sua humanidade, movimento semelhante se dá no livro italiano. No entanto, as construções de Calvino são homenageadas não enquanto representantes materiais da história humana, mas como a própria vida do homem citadino, como se as cidades fossem elas mesmas as contadoras de histórias, a humanidade por excelência. Nesse sentido, pode-se enxergar cada um dos locais mencionados como alegorias dos sentimentos humanos, o que concede aos microcontos um caráter filosófico profundo. Conhecer as cidades é conhecer a si mesmo. O ato de viajar oferece ao viajante a expansão do seu conhecimento acerca do espaço viajado, mas também acerca de si mesmo. De fato, Marco Polo defende e comprova que as viagens são a única via de compreensão do mundo em sua totalidade. Em cada cidade nova refletem-se o presente, o passado e o futuro do homem, dado que todas foram arquitetadas e edificadas por cérebros e braços humanos. As fabulações elaboradas pelo subalterno do imperador permitem que este viaje sem deixar o trono. Por intermédio da memória e da palavra de Marco Polo, nós, juntamente a Kublai Khan, nos locomovemos pelo império mongol e pelo interior da essência humana; por intermédio delas as cidades sobrevivem mesmo quando já extintas do mapa, ainda que geograficamente invisíveis.

“Tudo isso para que Marco Polo pudesse explicar ou imaginar explicar ou ser imaginado explicando ou finalmente conseguir explicar a si mesmo que aquilo que ele procurava estava diante de si, e, mesmo que se tratasse do passado, era um passado que mudava à medida que ele prosseguia a sua viagem, porque o passado do viajante muda de acordo com o itinerário realizado, não o passado recente ao qual cada dia que passa acrescenta um dia, mas um passado mais remoto. Ao chegar a uma nova cidade, o viajante reencontra um passado que não lembrava existir: a surpresa daquilo que você deixou de ser ou deixou de possuir revela-se nos lugares estranhos, não nos conhecidos”.  (p. 35)

O fato de serem invisíveis faz com que as cidades sejam imensas, infinitas. A imaginação refinada de Calvino e o modo com que seu narrador manipula a linguagem dos contos permitem que o leitor visualize com perfeição a cidade descrita, sem contudo abrir mão da própria subjetividade na composição mental que é estimulado a fazer. As belas ilustrações de Matteo Pericoli, disponíveis na edição publicada pela Companhia das Letras, legitimam tal afirmação: embora reproduzam com fidedignidade o que é descrito por Marco Polo, muitas delas distanciam-se daquelas imaginadas por quem lê a obra. Tal discrepância reafirma o papel de cada um dos habitantes e ouvintes na construção da cidade, produto da interpretação de quem a idealiza. Nas palavras do personagem Marco Polo, “quem comanda a narração não é a voz: é o ouvido”.

Desse modo, evidencia-se o valor inestimável da linguagem para a edificação das cidades e também para sua preservação. Transformar em narrativas os lugares decadentes faz com que eles vivam um pouco mais, com que o império sobreviva por mais tempo. Sejam frágeis ou sólidas, as cidades só se sustentam, só ganham vigor e utilidade pela presença humana, pela narrativa, pelo diálogo, pelo envolvimento e pela interpretação dada a elas pelo homem, pela relação afetiva do ser humano com o espaço que o circunda. Também é assim com a vida humana. As cidades são obras arquitetadas pelo homem, bem como a literatura. O escritor (ou contador de histórias) e o leitor (ou ouvinte) são arquitetos cuja matéria é a palavra. Delas, Italo Calvino soube retirar o suprassumo, com o qual moldou suas encantadoras e fantásticas cidades, culminando em um dos mais belos finais de livro de toda a literatura:

“O inferno dos vivos não é algo que será; se existe, é aquele que já está aqui, o inferno no qual vivemos todos os dias, que formamos estando juntos. Existem duas maneiras de não sofrer. A primeira é fácil para a maioria das pessoas: aceitar o inferno e tornar-se parte deste até o ponto de deixar de percebê-lo. A segunda é arriscada e exige atenção e aprendizagem contínuas: tentar saber reconhecer quem e o que, no meio do inferno, não é inferno, e preservá-lo, e abrir espaço.” (p. 200)

Tamy Ghannam (contato@literatamy.com)

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20 anos, São Paulo, Letras. Apaixonada por literatura, compartilhando experiências literárias através da internet.

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