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Armadilha do tempo

Tamy GhannamTamy Ghannam

“Foi quando, como em um sonho, saquei o celular do bolso e me senti muito mais do que um estranho, ou um estrangeiro. Senti-me um extraterrestre”.

  
Imagem da capa
Este post é um publieditorial.

16144943_1197528026951263_661201294_o  Desse modo, in media res inicia-se a narrativa de Armadilha do tempo. O tema principal do livro é introduzido paulatinamente e o estranhamento que acomete o protagonista da história estende-se também ao leitor. Assim como o personagem, nós nos vemos desarranjados, em desnorteio diante do absurdo e junto com ele negamos o extraordinário da situação. Até o ponto em que é impraticável rejeitar a realidade: a viagem impensada a tempos passados acontecera e uma atitude em relação a isso tornara-se necessária.

  De repente, arremessado a décadas anteriores, o narrador é rendido a tomar consciência dos próprios atrasos. Diante da impossibilidade de retornar ao seu verdadeiro tempo e de comunicar a alguém o que lhe aconteceu, correndo o risco de ser considerado insano, ele reconhece sua incapacidade e sua dependência em relação a mecanismos que foram criados por outrem, e não por sua própria inteligência. A humanidade do personagem é assustadora porque se aproxima muito da nossa. Demasiado humano, como diria Nietzsche, e também sozinho em uma época a qual não pertence, pelo menos não como adulto. Estando distante do seu universo habitual e condenado a contar apenas consigo mesmo, o protagonista percebe que talvez não se conheça tanto assim. A viagem funciona também, em certa medida, como uma busca forçada por sua identidade, busca esta que ele provavelmente evitaria a todo custo, não fosse pelo evento insólito.

  Quando a solidão é involuntária e o único contato viável com entes queridos e conhecidos se dá por meios tecnológicos, a reflexão acerca do funcionamento das relações no mundo moderno não se pode evitar. Através de recursos digitais, como as redes sociais, o protagonista de Armadilha do tempo passa a representar um estado de perfeição que difere-se muito de seu desalento real. Pela internet ele consegue mascarar o desespero de ver-se desconectado da realidade da qual fazia parte até então e assume com naturalidade a dissimulação oferecida pela modernização. Preso a uma existência em que o mais importante é menos o que ele é do que aquilo que ele aparenta ser, o narrador está mais próximo da contemporaneidade do que pode imaginar, afinal, os disfarces de fachada têm sido cada vez mais explorados com a tecnologia.

  Com eloquência e sinceridade de quem não tem nada a perder, o narrador considera a presença do leitor e o envolve completamente na narrativa. Ele sabe que está contando uma história cujo final lhe é conhecido e portanto procura construí-la de modo a conquistar a atenção do interlocutor, e o faz com sucesso. Parar de ler antes de chegar ao fim é impensável. Muito embora o protagonista assuma por vezes posições irritantemente machistas – e mesmo misóginas, em certos pontos – e não seja lá o mais agradável dos personagens, não se pode dispensar seus dotes como contador de histórias. Ele organiza a narrativa ao mesmo tempo em que a conta, dando-lhe vida, como quem conversa pessoalmente com outra pessoa, valendo-se de uma oratória impecável e um raciocínio reflexivo impressionante, depositando elementos fundamentais à montagem do quebra-cabeças e à resolução das reviravoltas (que são muitas e emocionantes!) com cautela e arranjo perfeitos para que o mistério seja mantido, sem enrolação. Francisco Scattolin encontrou o equilíbrio da escrita e ergueu Armadilha do tempo com todas as medidas certas.

  A obra foge completamente do lugar comum que se espera de viagens no tempo. Ela propõe um exercício reflexivo e ponderado de empatia, escancara nossa impotência e evidencia problemas e benefícios do passado e do presente, alertando-nos à necessidade de prestarmos atenção ao real por trás do virtual. A narrativa nos captura do início ao fim e termina por mostrar que nem sempre é possível compreender a razão dos acontecimentos, mas que mesmo as armadilhas incompreensíveis e inesperadas podem ser aproveitadas.

ONDE ENCONTRAR?

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O livro é uma publicação independente e está disponível apenas em ebook, inclusive no Kindle Unlimited. Comprando por este link você ajuda o LiteraTamy sem gastar nada a mais por isso.

Tamy Ghannam – LiteraTamy (contato@literatamy.com)

20 anos, São Paulo, Letras. Apaixonada por literatura, compartilhando experiências literárias através da internet.

Comentários 2
  • Alexandre Melo
    Publicado em

    Alexandre Melo Alexandre Melo

    Responder Autor

    Seu blog ficou lindo Tamy! Parabéns a todos os envolvidos! Desejo sucesso!
    Alexandre Melo – Do Que Eu Leio


    • Tamy Ghannam
      Publicado em

      Tamy Ghannam Tamy Ghannam

      Responder Autor

      Ale, querido!
      Sua opinião é sempre muito importante para o LiteraTamy. Fico feliz que tenha gostado.
      Beijos,
      Tamy