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A VELOCIDADE DA LUZ

de Javier Cercas

Tamy GhannamTamy Ghannam

Quando se trata de contar histórias, tem menos valor o que é contado do que como contar. Sendo o autor um sujeito que organiza pela linguagem o mundo que se dispõe a narrar, é essencial que ele leve em consideração todos os meios possíveis para expor suas fabulações e, diante das várias alternativas, opte por aquela que torne seu relato algo digno de ser lido. Isso se aplica a todas as categorias de arte que possam transmitir uma mensagem (o cinema, a fotografia, o desenho, a música, a dança, etc.), mas aqui nos interessa sobretudo a literatura.  Pensar literatura é pensar em modos possíveis de se contar histórias por meio das palavras.

Sobre essas e outras questões acerca do processo de escrever e interpretar o mundo sustenta-se o romance A velocidade da luz (2002), do espanhol Javier Cercas. O livro tem como protagonista um personagem sem nome, que evoca seus anos de formação para narrar as consequências de um acaso da juventude sobre o restante de sua vida. Na década de 1980, recém-formado e aspirante a escritor, por casualidade ele é convidado a lecionar espanhol em uma universidade de Urbana, nos EUA, e lá acaba conhecendo o esquisito Rodney Falk, colega de trabalho com quem divide um cômodo. De início, pouco se sabe sobre essa estranha figura de tapa-olho. Descrito como um homem reservado, excêntrico, grandalhão e desajeitado, além de admirador convicto de Hemingway, o ex-combatente da guerra do Vietnã é de uma configuração absolutamente repelente que, no entanto, Cercas consegue transformar em alguém bastante atraente, além de imprescindível ao percurso literário do narrador que pretende se afirmar enquanto autor.

Não são poucas as correspondências entre o narrador inominado e o próprio Javier Cercas e naturalmente elas devem ser levadas em consideração enquanto parte de como o autor decidiu contar sua história. Mas só. Pouco importa saber se aquilo que é narrado realmente aconteceu, uma vez que a própria narrativa afirma que a verdade é absurda, e daí a necessidade de ficcionalizá-la. Nesse sentido, Falk desponta como um mestre, já que viveu o absurdo da verdade até o ápice durante a guerra.

O que me dá nojo não é o fato de que isso seja verdade, e sim que ninguém diga essa verdade, e ao me perguntar por que ninguém faz isso me ocorre uma ideia que eu nunca tinha pensado: que talvez ninguém a diga não por covardia, mas simplesmente porque soa falsa, absurda ou monstruosa, porque ninguém que não saiba a verdade de antemão está em condições de aceitá-la, porque ninguém que não tenha estado aqui vai aceitar o que aqui qualquer soldado raso sabe: que as coisas que têm sentido não são verdade. São apenas pedaços de verdades, miragens: a verdade é sempre absurda. E o pior é que só quando você sabe disso, quando você aprende o que só se pode aprender aqui, quando você finalmente aceita a verdade, só então pode ser feliz. (2018, p. 105)

Sobre a guerra e as névoas que esse período imprimiu sobre a trajetória de Falk vamos descobrindo pouco a pouco, junto do protagonista, mas o que desde o princípio podemos supor é que sua experiência no Vietnã foi um contribuinte fundamental à consolidação de Rodney não só como leitor crítico da melhor qualidade, mas também à sua capacidade de atribuir sentido a uma realidade completamente absurda. A faculdade de transformar a existência insensata em algo coerente é, segundo Falk, o que diferencia uma pessoa comum de um escritor, e por isso ele passa a atuar como um mentor primordial à carreira literária do narrador, auxiliando-o a farejar histórias e apontando o modo ideal de contá-las.

Quero dizer que as pessoas normais padecem ou desfrutam a realidade, mas não podem fazer nada com ela, enquanto o escritor pode, sim, porque sua profissão consiste em dotar a realidade de sentido, mesmo que esse sentido seja ilusório; ou seja, ele pode dotá-la de beleza e essa beleza ou esse sentido são seu escudo. Por isso eu digo que o escritor é um maluco que tem a obrigação ou o duvidoso privilégio de ver a realidade, e por isso, quando um escritor para de escrever, acaba se matando, porque não conseguiu se livrar do vício de ver a realidade, mas já não tem aquele escudo para se proteger dela. (2018, p. 60)

Conforme o tempo passa, Rodney Falk e o narrador se afastam e se aproximam muitas vezes. O protagonista começa a escrever e publica uma obra que lhe garante sucesso e reconhecimento, mas as barbaridades vividas por seu amigo misterioso continuam a perturbá-lo, como que pedindo por uma ressignificação que as concedesse algum senso – principalmente depois que ele tem acesso às cartas escritas por Falk enquanto vivenciava os horrores da guerra. A velocidade da luz acaba sendo, então, o romance que ele escreve na tentativa de contar a história de Rodney, dotá-la de sentido. A narrativa é dividida em quatro partes; a primeira delas, “Todos os caminhos”, narra o encontro dos dois, o desconforto inicial e o nascimento da gradual afinidade que os conecta, além de reproduzir as dicas oferecidas por Falk em relação a todos os caminhos possíveis de seguir quando se escreve. Neste primeiro momento, determina-se a importância de como contar algo para além do algo em si, e por isso é preciso levar em conta a estrutura elegida pelo narrador de Cercas para a construção de seu relato. A parte seguinte, “Listras e estrelas” traz um trabalho de pesquisa do protagonista que acaba acessando Rodney por outras vias: ou pelo que os outros têm a dizer dele ou pelo que ele mesmo escreveu, isto é, pelo seu modo de ordenar o real.

“Porta de pedra” é a seção do livro mais centrada no narrador e, ao mesmo tempo, que mais o aproxima de Falk, já que relata o período em que o protagonista experimenta uma solidão inédita que potencializa sua identidade, elucidando as semelhanças que o unem ao outro homem, também solitário. É fascinante perceber os movimentos paradoxais que encaminham o narrador a esse isolamento quase insuportável. O êxito obtido como escritor muda a sua forma de relacionar-se com o outro, de observar e interagir com o mundo, impedindo-no de imbuir sua existência de qualquer sentido que justifique seu papel de escritor; em outras palavras, seu sucesso é a causa do seu fracasso, como autor e como ser humano. Assim, ele acaba transfigurado em anti-herói, em equivalência ao que ocorrera com Falk ao retornar do Vietnã, censurado por seus compatriotas. A compreensão cabal dessa dinâmica entre os dois personagens se solidifica na parte final do livro, “A álgebra dos mortos”. Nesse fragmento, o narrador entende não apenas Rodney, mas também encontra o jeito certo de contar a história que precisava, voltando a ver a realidade como um verdadeiro escritor ao solucionar o dilema que era transformar, ou não (e como), a história do antigo oficial em literatura, olhá-la como um contador de histórias, ou seja, dotá-la de sentido.

Em determinados momentos do livro, basta um curto episódio, tão veloz quanto a velocidade da luz, para que uma informação crucial à narrativa seja compreendida pelo narrador (e por nós, enquanto leitores de sua narrativa). É o caso, por exemplo, do momento em que, sem querer, ele encontra Rodney observando tristemente algumas crianças brincando no parque, com olhos de quem assiste à beleza e à esperança depois de ter presenciado as sequelas do desespero e da morte. A guerra é uma idiossincrasia de Falk, um traço constituinte e inegável que o acompanha como um vírus, mesclando-se à sua vida de maneira irrevogável.

Porque aqui estamos todos loucos, loucos e sozinhos, e sem nenhuma possibilidade de avançar ou retroceder, de perder ou ganhar, como se girássemos sem parar em torno de um círculo invisível traçado no fundo de um poço vazio, onde o sol nunca chega. Escrevo no escuro. Não tenho medo. Mas às vezes me assusta pensar que estou prestes a saber quem sou, que atrás de qualquer curva de uma estrada qualquer vou ver surgir um soldado que sou eu. (2018, p. 97)

Por outro lado, a guerra fez de Rodney um narrador, na medida em que o obrigou a dotar de sentido o horror experimentado, primeiro através das cartas que escrevia para seus pais, descrevendo seu dia-a-dia, e depois quando finalmente decide contar ao protagonista inominado qual foi a verdadeira atrocidade que marcou sua vida para além do Vietnã. Apenas quando ele resolve assumir o papel de locutor de sua própria história é que ela pode ser apropriada por um outro que a escreve e por outros que a leem, tornando-a cada vez mais rica em sentidos dados por cada leitor-autor. Assim, se considerarmos somente a narrativa ficcional de A velocidade da luz como limite, Rodney é o verdadeiro autor do livro que ganha forma conforme o lemos; aliás, o narrador já havia notado que, em relação ao romance que pretendia escrever, Falk “cifrava uma espécie de manual de instruções sobre como escrevê-lo, ou pelo menos sobre como não escrevê-lo, como se, desde que nos conhecíamos, Rodney sempre estivesse me adestrando de forma sub-reptícia para que um dia eu contasse sua história” (2018, p. 162). No entanto, se pensarmos fora dos limites do ficcional, apreendendo a fusão entre ficção e realidade como um elemento constituinte da narrativa e, por isso, importante enquanto traço narrativo, o aspecto apócrifo do texto propõe outras questões, sobretudo quando se considera a seguinte afirmação dos personagens:

“As histórias não existem”, ele disse uma vez. “O que existe, sim, é quem as conta. Se você sabe quem conta a história, ela existe; se você não sabe, não existe história.” “Então eu já tenho a minha”, respondi. Expliquei que a única coisa que estava clara no meu romance era justamente a identidade do narrador: um sujeito exatamente igual a mim mesmo, que se encontrava exatamente nas mesmas circunstâncias que eu. “Então o narrador é você mesmo?”, inferiu Rodney. “Nada disso”, devolvi, feliz porque agora era eu quem conseguia confundi-lo. “Ele se parece em tudo comigo, mas não sou eu.” (2018, p. 54)

Ora, não por acaso o narrador de A velocidade da luz não é nomeado, assim como também não é acidental a inserção do trecho acima no romance. Avaliando essas duas escolhas tomadas por Cercas no processo de pensar como construir seu livro, seguramente o que o autor buscava era atingir certo efeito, efeito este que se torna o grande pulo do gato da obra. Se não sabemos quem é o narrador do livro (ou se sua figura se funde tanto à de Cercas que é praticamente impossível diferenciá-las) e se uma história não existe sem que se saiba quem a conta, a narrativa de A velocidade da luz está completamente invalidada. Exceto se ela for uma narrativa em andamento, que provoque o efeito do infinito, de obra sem final, ou que termine tão ágil quanto a luz, revelando, por fim, suas extremidades – e quem as une. Desse modo, protagonista, autor e leitor acompanham, em tempo real, a elaboração do livro que o narrador está escrevendo. A obra ganha forma sob nossos olhos. Com isso, Cercas ensina e demonstra que o como é, de fato, a etapa mais importante da construção de uma história.

A velocidade da luz é, a um só tempo, um romance e um estudo do romance. Complexo, repleto de camadas e nuances que se alternam como foco sobre um mesmo fundo, lê-lo é como ter a sensação de desembalar um embrulho dentro de um embrulho, e assim por diante; o envoltório final contém uma verdadeira preciosidade. Acima de tudo, trata-se de um livro sobre sobrevivência, sobre resistir através da escrita, um manifesto de que sem a literatura não há mundo possível.

Tamy Ghannam (contato@literatamy.com)

EDIÇÃO RESENHADA:

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Editora Globo + TAG Livros (2018)

Tradução de Sérgio Molina

Posfácio de João Anzanello Carrascoza

272 páginas – Capa dura

Assista também ao vídeo sobre o livro no canal LiteraTamy: 

22 anos, São Paulo, Letras. Apaixonada por literatura, compartilhando experiências literárias através da internet.

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