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A DURAS PENAS

de Edna Rezende

Tamy GhannamTamy Ghannam

“Quem nasceu primeiro: o ovo ou a galinha?”

A pergunta fundamental. Interessa menos a solução do enigma do que a reflexão em si. O fato é que as aves têm simbolizado dilemas e inquietações essencialmente humanas, indicando que talvez sejamos mais próximos dos pássaros do que nossas diferenças ostensivas nos permitem intuir.

É nessas zonas fronteiriças em que as aves e os humanos estão mais próximos e, ao mesmo tempo, em que suas distinções são mais visíveis, que Edna Rezende circunscreve os contos de A duras penas (2018). Segundo o poeta Marcelo Benini, na orelha da edição publicada pela editora Patuá, “nas mãos de Edna os pássaros e as aves são cruéis espelhos da condição humana”. Isso de fato se dá, às vezes porque os animais refletem as semelhanças que existem entre nós, outras porque apontam de modo claro o quanto podemos ser diferentes. O que importa é que em todos os contos do livro os paralelos, comparativos ou distintivos, se mantêm.

capaA começar por “A cacatua”, em que de modo inusitado a passarinha Gigi narra como é viver sendo o animal de estimação de dona Marisa. Humanizada desde o começo pelo poder de narrar com palavras humanas, a ave parece mais livre que a própria tutora, que, em movimento contrário ao seu, é cada vez mais animalizada e domesticada dentro do casamento que a tolhe, tal qual pássaro engaiolado e esquecido, à beira da demência. “A galinha (I)” traz Ernestina, mais uma vez uma mulher enjaulada pelo matrimônio que embarga seus potenciais. Sua galinha aleijada (em equivalência à metafórica impotência de Ernestina para caminhar livremente) é tão adaptável e sobrevivente quanto a dona, que tem roubadas até mesmo as mais modestas alegrias cotidianas.

A triste história em “A joaninha-de-barro”, cotejando a arquitetura do homem à do joão-de-barro, é mais um testemunho de que, independente da espécie, a fêmea sempre pode ser subjugada pelo simples fato de ser do sexo feminino (ou por ter desejos). As correlações entre as mulheres e as aves fêmeas, aliás, são um dos pontos altos do livro de Rezende. Seu olhar aguçado para as particularidades do feminino, aliado à prosa harmoniosa de quem não pretende transformar sua literatura em panfleto e nem tampouco ignorar aspectos determinantes da sociedade da qual faz parte, produzem notáveis reflexões acerca do que é ser mulher – e de como é possível que mulher e ave se acheguem e compensem, uma com a outra, os danos a que estão sujeitadas.

Incrível como os humanos são tolos. Em revoada, nós contornamos as molradas deles situadas nessa chácara, ouvimos sua fala pelas janelas ou, coisa horrível, pelas grades das gaiolas onde nos prendem. Mas em momento algum eles admitem, sequer remotamente, a hipótese de que possamos entender sua linguagem, suas histórias e seus tormentos. Eles são medrosos demais, se protegem demais. Se assim não fosse, aquela ratoeira, artefato do terror, não estaria lá, perto da escada. (2018, p. 51)

Conto por conto (todos os dez com excelentes narradores, cada um com sua voz muito particular), A duras penas constrói uma cartografia daquilo que humanos e pássaros compartilham. O livro por vezes ressalta a brutalidade do mundo, sim, mas tudo isso de modo nada escandaloso; pelo contrário: sobressai a singeleza do estilo, no sentido de que Edna Rezende não precisa de extravagâncias ou grandes adornos para atingir sua singularidade. A partir de uma forma precisa de escrita, sua prosa é consistente e acurada como o voo de uma águia, capaz de enxergar, com seus olhos atentos, tanto o que está em terra firme quanto o que se esconde nos céus. Do mesmo modo deve agir o leitor, alerta ao canto delicado de uma ave que gorjeia coisas importantes em meio aos ruídos mecânicos do dia-a-dia.

Somados às aquarelas de Leonardo Mathias, os textos recuperam ligações radicais entre a natureza humana e a natureza animal, como a capacidade de voar, de cantar e de se sensibilizar pela dor do outro, bem como a forte resistência aos muitos sofrimentos que tanto o homem quanto o pássaro devem enfrentar. O livro nos faz pensar: em que momento nos domesticamos? Quanto do sofrimento humano vem desse movimento não-natural de domesticação? Talvez A duras penas não nos forneça respostas, e talvez nem esteja interessado nisso, mas certamente nos dá vontade de voar acima da crueldade que tenta conduzir as relações interpessoais.

Tamy Ghannam (contato@literatamy.com)

EDIÇÃO RESENHADA:

capaEditora Patuá (2018)

150 páginas

Brochura

R$45,00

Assista também ao vídeo sobre o livro no canal LiteraTamy: 

Esse texto é um publieditorial, cujo conteúdo reproduz integralmente a opinião do
LiteraTamy.

22 anos, São Paulo, Letras. Apaixonada por literatura, compartilhando experiências literárias através da internet.

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