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A ÁRIA DAS ÁGUAS

de Luanda Julião

Tamy GhannamTamy Ghannam

Segundo o Dicionário Informal da Língua Portuguesa, um dos modos de definir ária seria “parte da música de uma ópera composta para ser cantada ou recitada por somente uma pessoa (solista)”. Nesse sentido, a presença da palavra no título de A ária das águas (Patuá, 2018) é duplamente certeira pela relação que estabelece com o protagonista da história, Paolo Savina. Em primeiro lugar, porque ele trabalha como maestro, assim sendo impossível distanciá-lo da música, e em segundo lugar pela personalidade reservada e introspectiva do regente que, podendo escolher compor um tipo de canto, muito provavelmente escolheria a ária, dado seu caráter individualista.

O fato é que o personagem só é capaz de extravasar pela música, demonstrando sua verdadeira personalidade intempestiva e autoritária através das obras musicais que conduz. O romance tem início in media res, justamente durante uma dessas apresentações, quando Paolo sente um mal estar súbito que o leva à descoberta de um câncer em estágio avançado.  A narrativa descreve os movimentos da doença sobre o corpo como o movimento de uma dança silenciosa, sublime por aproximar o terrível do inevitável, revelando o que na morte há de clássico. A reação de Savina ao indesejado hóspede em seu corpo é a de um regente habituado a comandar e não a seguir ordens: ele escolhe a eutanásia como quem enxerga nela um meio de dominar a morte, buscando tornar-se maestro da própria vida.

capaO capítulo inicial dessa história tem como cenário dominante o hospital, local em que tomam forma as partes mais interessantes do livro, onde despontam os conflitos bioéticos que acompanham a eutanásia e começam a surgir na cabeça do leitor questões incômodas relativas ao poder do ser humano sobre o corpo que lhe pertence, acerca do papel de um médico diante da vontade do paciente e a respeito dos familiares, que têm de aprender a lidar com o desapego para preservar o respeito pelo sujeito amado que decide não mais lutar pela vida. O desejo de Paolo é retornar à chácara Speranza, sítio encantador do qual guarda boas lembranças e onde se passa o segundo capítulo do relato. Lá ele pretende terminar a chamada “Ária das águas”, sua última composição, que representa, em grande medida, sua vida, que ele rege como a uma sinfonia.

Os caminhos de construção do protagonista são inusitados e eficientes, aprazíveis de acompanhar. Partindo de uma abordagem do contexto histórico-social do Brasil atual, o narrador revela traços pessoais de Paolo, localizando o personagem fictício dentro do real, de modo que, quando a narrativa parte para o mergulho em suas águas particulares, sua personalidade e sua presença já são bastante visíveis, corpóreas e compreensíveis diante de nossos olhos. Infelizmente, o mesmo não pode se dizer sobre seus filhos; seus nomes são Bruno, Vitório, Carlos e Sarah, sendo que o primeiro deles nem sequer aparece na obra como algo além de um simples nome mencionado ao acaso. Talvez fosse melhor que os outros dois filhos homens também não aparecessem, já que suas histórias de vida surgem no romance como se fizessem parte de um outro livro, trazendo com eles descrições supérfluas e clichês desinteressantes, sem qualquer peso para o fio principal da trama, servindo apenas para que a eutanásia, questão central do relato, se perca enfraquecida no meio do caminho.  À exceção de Sarah, personagem de razoável aproveitamento, cuja presença suscita a formação de dilemas importantes em relação à decisão fatal de Paolo, os outros filhos atuam como obstáculos à consistência da narrativa, debilitando-a quando, na verdade, poderiam ajudar a aprofundá-la. De fato, é sensível a ausência de participação dos familiares em questão tão relevante quanto a eutanásia do pai.

À parte isso, há de se falar sobre o excelente prefácio do livro, escrito pela própria autora. Nele, Luanda Julião, graduada em Filosofia e mestranda em Filosofia Contemporânea, aponta o viés filosófico que a impeliu ao desenvolvimento do romance, indicando a aproximação da eutanásia à noção latina de “morte digna”, defendida e desejada por Paolo Savina. Já nesse texto introdutório somos acometidos por questões que reverberam no decorrer da leitura: podemos e devemos escolher como morrer? Até que ponto construímos a ilusão de eternidade que gera o apego a nosso corpo físico e a nossos entes queridos? E mais: o quanto a morte, experiência incompartilhável, pode afetar os que continuarão vivos?

Todas essas indagações fazem com que A ária das águas seja um romance filosófico por excelência, promovendo questionamentos fundamentais ao ser humano. Mais do que a morte como um fim, o livro de estreia de Julião arremessa o olhar ao processo de morrer, e nos relembra que não é preciso um diagnóstico de doença terminal com data marcada para a morte para que decidamos como pretendemos tocar a melodia que chamamos de existência. No afã de ser o maestro da própria vida, acostumado a guiar movimentos de orquestras, Paolo Savina passa a enxergar sua existência como a sinfonia mais importante que deve reger. Sua atitude em frente à iminência do fim transforma seus dias em uma canção a ser eternizada, legado a ser ouvido mesmo depois que o responsável por sua composição já não mais exista. Constatamos, ao fim da leitura, que a existência eletivamente interrompida garante a pausa silenciosa que é condição fundamental da música — e, por que não?, também da vida.

Tamy Ghannam (contato@literatamy.com)

EDIÇÃO RESENHADA:

capa

 

Compre pelo site da editora Patuá clicando aqui.

 

Assista também ao vídeo sobre o livro no canal LiteraTamy: 

Esse texto é um publieditorial, cujo conteúdo reproduz integralmente a opinião do
LiteraTamy.

 

22 anos, São Paulo, Letras. Apaixonada por literatura, compartilhando experiências literárias através da internet.

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